
saí da sala sozinha, percorri aquele corredor enorme com toda a gente a atropelar-se e tentei escapar o mais depressa possível. não esperei por ninguém, simplesmente fiz o meu caminho. cá fora, continuei a andar para a porta de saída e por uns breves momentos parei. claro que ninguém deu pela minha presença e nem sequer estranhou. desviei o caminho e comecei a caminhar na direcção oposta. comecei a dar passos cada vez mais espaçados e lentos como que uma dor se estivesse a apoderar de mim e de toda a minha alma. caminhei por uns minutos que pareceram horas, e lá ao fundo avistei um pequeno recanto, atrás do bloco principal. então aí comecei a andar mais depressa com medo que alguém tivesse a mesma ideia que eu. quando cheguei, atirei a mochila para o chão sem me importar onde ela ía parar, sentei-me no chão num gesto monótono e deixei-me ficar. perdi a noção do tempo. via as pessoas a dirigirem-se para a porta de saída e a irem para as suas casas perfeitas e para as suas vidas interessantes e cativantes e olhava para mim - sentada no chão, sozinha, na esperança que alguém me viesse resgatar daquela sofucante melancolia. ninguém chegava e então os segundos passaram a minutos.
ali, sozinha, comecei a pensar que a minha vida era completamente uma merda pegada. nunca tinha tido ninguém que gostasse de mim, nunca tinha tido um objectivo cativante que me fizesse andar para a frente. sentia-me cada vez mais só a cada dia que passava e perguntei-me muitas vezes o porquê das pessoas se irem embora sem sequer olharem para trás. faz-me tanta confusão as pessoas irem-se embora e nunca se importarem com o que deixam para trás, quem magoam, os castelos que derrubam, os sonhos que destróiem. lágrimas começaram a escorrer-me pela cara cansada e nem sequer tive tempo para as conter. guardei-as tanto tempo, a pensar que essas pessoas nunca valeriam a pena, mas naquele momento estava-me completamente a borrifar para isso tudo. precisava de ter a certeza que ainda conseguia sentir alguma coisa e que não andava no mundo como uma morta-viva.
de repente saí uma pessoa da porta do fundo a poucos metros de mim. nesse momento rezei com tudo o que tinha para me conseguir camuflar ou para me transformar numa parede, mas não deu resultado, porque quanto mais queremos que as coisas acontecem, mais elas acontecem de uma maneira completamente diferente. essa pessoa olhou para mim e desviou o olhar, mas depois olhou outra vez e começou a encaminhar-se na minha direcção. podia muito bem ter corrido e desaparecido, mas nem isso conseguia. estava num estado lastimável, completamente esgotada da pressão toda que andava á minha volta.
- está tudo bem? - pergunta ele com a mão esticada para me ajudar a levantar. estas perguntas são sempre tão escusadas. uma pessoa toda borratada, com as lágrimas a inundarem a cara toda e com os olhos vermelhos só pode estar bem.
- está. - respondi eu a levantar-me sem precisar da ajuda da mão dele. claro que o orgulho fala sempre mais alto.
- não parece.
silêncio.
mais silêncio. ele olhava para mim e eu desviava o olhar.
- bem, estou a gostar muito desta conversa, mas vou andando. - disse eu num modo sarcástico.
- não vais nada. não sejas assim e explica-me lá o que tens. ás vezes falar com uma pessoa que não conhecemos, ajuda. - diz ele a arregalar os olhos para mim e a esboçar um pequeno e subtil sorriso.
deixo-me cair no chão outra vez e recomeço a chorar.
ele puxa-me para cima e dá-me um abraço. um grande e sentido abraço. há tanto tempo que eu não sentia aquilo. uma nova energia espalhou-se freneticamente pelo o meu corpo. ficamos assim um bom bocado, até que as lágrimas começaram a parar e a secar, o nariz voltou á cor normal e os olhos desincharam. despegamos-nos um do outro e eu olhei para ele em tom de 'obrigada'.
- de nada. sempre ás ordens. - diz ele como que a ler-me os pensamentos.
- bem, desculpa isto tudo. - decidi desmontar a capa protectora que utilizava todos os dias e pus as cartas todas na mesa - já é tarde, é melhor voltar para casa.
- prometes-me que ficas bem? não penses nas coisas tristes, elas não servem para nada porque o que já passou, já passou e tu nada podes fazer para mudares isso. por isso, concentra-te no futuro e tenta esboçar um sorriso. - deu um sorriso cómico e exagerado e eu tive de esboçar um sorrio também.
- sim, eu sei. peço desculpa outra vez por estas coisas. sabes? coisas de gajas. olha, já agora diz-me o teu nome. - pedi eu.
- não precisas de saber. - diz ele.
olhei para ele de alto a baixo e perguntei-me a mim mesma o que é que ele tinha na manga. coitado, pensa que é engraçado.
- como queiras. - fiz cara de enjoada e comecei a andar para a porta de saída.
- espera, eu vou contigo.
- não te pedi nada.
- eu sei, mas eu vou na mesma.
- faz o que quiseres.
começamos a andar e ele acompanhou-me em silêncio até á paragem de autocarro.
- bem, estás entregue. vemos-nos amanhã.
- ou não. - respondi eu em tom de sussurro.
- eu espero bem que sim. até amanhã. - de repente só sinto os lábios dele na minha face. um pequeno e carinhoso beijo e de seguida vai-se embora. ainda bem que ele não foi a tempo de ver o tomate em que me tinha transformado. a viagem até casa decorreu nas calmas, sem grandes correrias. cheguei a casa, fui tomar banho, jantei com o meu pai e fui para a cama. nem sequer dei uma olhadela na televisão nem no pc. estava tão cansada que quase nem conseguia abrir os olhos. enfiei-me debaixo dos cobertores e adormeci poucos segundos depois. só sei que adormeci a pensar nele. naquela arrogância de menino mimado que mexeu comigo. naquele beijo na face e naquele abraço.
o despertador tocou, desliguei-o sem abrir os olhos. saltei da cama, vesti-me, penteei-me, pus perfume, atirei a mochila para as costas, desci as escadas, comi uma taça de cereais, gritei á minha mãe para se despachar e fui para a escola. a rotina normal. cheguei á escola já atrasada, como de costume, e encaminhei-me para a sala. quando estou a subir as escadas ele aparece-me á frente.
- bom dia. - diz ele com um sorriso.
- bom dia. já estou atrasada, deixa-me passar. - disse eu a tentar desviar-me dele.
- espera. estou aqui há tua espera há meia hora por isso agora espera um bocadinho. como estás hoje? - diz ele com um olhar preocupado e carinhoso.
- eu estou bem. escusavas de te ter preocupado. ontem foi só um desabafo ok? vá, por favor falamos depois, estou atrasada. - disse eu rapidamente.
- vou anotar essa. vai lá. boa aula.
- boa aula para ti tambem. - saiu de ao pé dele e caminho rapidamente para a sala.
entro na sala, sento-me ao lado da joana e a aula decorre normalmente. toca para o intervalo grande. saio da sala com a margarida, a joana e a ana e vamos até ao bar. no meio do caminho aparece-me outra vez ele. "oh não!" pensei eu. que explicação tenho para elas?
- olá outra vez.
claro que elas olham para mim com cara de ponto de interrogação.
- olá.
- bem nós vamos indo para o bar. - diz a ana. saem de ao pé de nós num ápice e lá ao fundo a margarida vira-se para trás e faz um gesto com a boca qualquer que eu não percebi.
- o que tu queres agora? - perguntei eu. estava cheia de calores a minha barriga parecia um vendaval.
- eu nada. só queria estar um bocado contigo. é pedir muito? - diz ele a olhar para mim com cara de cachorrinho abandonado.
- não, não é. só que não podes aparecer sempre assim quando te apetece. assustas-me. - disse eu com os olhos arregalados.
- oh sim, tu quase morres de susto. - diz ele a brincar.
dou-lhe um sorriso de inocência. começamos a andar e ele vira-se para mim e diz:
- queria-te mostrar um sítio. á tarde podes ir um pouco mais tarde para casa?
- que sítio?
- és sempre assim tão curiosa? - pergunta ele.
- não me respondas com outra pergunta. mas sou, sempre. que sítio?
- logo vês.
- fogo, nunca me contas nada.
- há que manter o suspense. - diz ele com um sorriso.
- eu digo-te o suspense, digo digo.
o intervalo decorreu normalmente. estivemos a andar pela a escola, a comentar tudo e nada. a rirmo-nos por coisas que não tinham piada nenhuma e eu cada vez estava a achar-lhe mais piada.
depois desse intrevalo não o vi mais durante o dia todo. posso confessar que fiquei um pouco triste porque já me estava a habituar a ele estar á minha espera e á minha procura durante todo o tempo. saí da escola na expectativa de o encontrar logo para ele me levar ao sítio que ele conhecia. como agora os valores antigos estão fora de moda, tive de ficar á espera dele durante uns 10 minutos. quando chegou pediu-me muitas desculpas, mas a stra deu um sermão á turma por coisas sem importância. até tinham importância para mim, porque cada vez mais os assuntos dele, eram os meus assuntos. caminhámos durante pouco tempo, ou melhor, secalhar o tempo é que passou demasiado rápido para não o sentir. paramos á frente dum muro antigo, cheio de ervas a crescerem por todos os lados.
- é isto? - perguntei eu, um pouco desiludida.
- não. - disse ele. - segue-me.
andamos em paralelo ao muro e quando paramos reparei num buraco por entre aquelas ervas todas. claro que ele nunca me iria dizer para passar por aquilo, pensei eu.
- vá, enfia-te aí dentro.
- estas a gozar?
- não! faz o que eu te digo. vais ver que vais ter uma surpresa.
- odeio-te por isto.
- eu sei eu sei.
com cuidado, pus um pé de cada vez e depois passei o corpo. ele segui-me. parei por uns segundos. estavamos num jardim lindo. via-se que ninguem ali ía. as ervas estavam a crescer descontroladamente, as raízes das árvores tinham rebentado a tejoleira, mas aquilo tudo formava um cenário magnífico. perfeito demais para ser verdade.
- ai, isto é tão lindo!
- eu disse que ias gostar. vamo-nos sentar ali. - apontou para o único banco que ali estava.
sentámo-nos e ficamos os dois em silêncio. ele a observar o jardim já tão familiar aos seus olhos e eu a contemplar um mundo completamente diferente do que estava habituada.
- gostas? - perguntou-me ele sem olhar para mim.
- claro. isto aqui é lindo.
- ainda bem que gostas. achei que te ía fazer bem.
- preocupas-te demasiado. - disse eu a observar o vento a roçar nas pequenas folhas que voavam mas acabavam por cair no chão.
- pois preocupo. mas tambem só me preocupo com as pessoas de quem eu gosto. - virou a cara para mim e sorrio.
as minhas bochechas ficaram vermelhas, uma sensação estranha correu todo o meu corpo e eu percebi que ele tinha entendido qual a sensanção que ele me causava. ele riu-se e chegou-se mais perto de mim.
eu simplesmente deixei-me ficar a olhar para ele, sem me afastar, sem me fazer de forte, sem cortar o momento. estava tudo tão perfeito que eu nem sequer podia pedir melhor. a cara dele aproxima-se mais da minha, e estava cada vez mais próximo e é então que começa a fechar os olhos. fecho os meus tambem e só sinto os lábios dele nos meus. sinto também os braços dele que me envolvem num abraço. a lingua dele envolveu-se na minha e por uns momentos eu não queria mais nada. a emoção daquilo tudo fez-me ter calafrios por todo o meu corpo, os meus poros chamavam o nome dele, o meu coração acordou e começou a bater como nunca tinha batido. depois daquele beijo, seguiram-se muitos outros onde nada nem ninguem podia acalmar o desejo que eu sentia dentro de mim. era como um tsunami que eu não conseguia acalmar, que destruia tudo á sua passagem.
quando ele finalmente soltou os seus lábios dos meus disse, com uma voz quase rouca e ofegante:
- já agora, chamo-me pedro.