27.10.09

caixa de chocolates







"A vida não passa disto, os momentos perfeitos servem para nos dar força para todos os outros e ensinam-nos que a eternidade às vezes só dura alguns momentos, mas entre caixotes, pó, memórias perdidas no tempo e a certeza que nunca mais entrarei na casa onde vivemos, guardo-te com o sabor dos chocolates que já viveram na mesma caixa onde agora repousas, sereno e pacificado como o meu mais perfeito namorado, na doçura triste que sucede a desordem do amor. "



os amores vividos têm sempre mais força do que qualquer outra coisa*

25.10.09

não há pressa.


acordei, lavei os dentes, vesti-me e tomei o pequeno-almoço. mandei mensagem á joana para ela descer, fomos para a escola e chegámos 10 minutos antes de tocar. o grupo habitual estava ao pé do bloco e fomos lá ter.


- Bom dia. - a joana cumprimenta sempre, eu é que raramente digo alguma coisa.
- Bom dia! - o antónio já lhe fez olhinhos, ai que impossível. começa logo de manhã, aquele gajo é mesmo um predador, quantas mais melhor. já me habituei.
ficamos a falar um bocado, as conversas normais e depois tocou para a entrada. a sala estava fria naquela manhã e estava para chover. sentei-me, tirei o livro e o caderno de inglês e esperei pela stra. passado 5 minutos, já toda a gente estava a comenar 'ai, a stra nao é de atrasar, queres ver que vai ser feriado?". por acaso, tanto fazia para mim. era um daqueles dias em que podiam dizer o que quizessem que nao me afectavam nem alegravam. passado pouco tempo chega uma funcionária á sala:
- A professora está a faltar e não há professor de substituição. A esta hora a biblioteca está fechada por isso podem ir lá para fora, mas sem barulho. Se começarem a incomodar as outras aulas vão ficar a limpar salas comigo.
a metade da frase dela, já ninguem estava a ouvir, já todos se preparavam para ir embora. fomos todos para junto do bar, tipo um grupo de amigos que se conhesse á anos. a carlota sentou-se ao lado da patricia, a mariana e a joana ao meu lado e o resto á nossa volta, tipo uma roda.
- Podiamos jogar ao verdade e consequência. - sugeriu o Pedro.
toda a gente concordou, mas eu não. nao sou desse tipo de pessoas, porque até costumo alinhar em muita coisa, mas verdade e consequência? que jogo básico. ainda tentei dar outra opinião, mas ninguem me ligou. levantei-me e bazei para fora do bar. a joana ainda insitiu para eu ficar.
- Ó joana eu vou dar uma volta e vou fazer os tpcs, porque temos matemática a seguir e ainda nao os fiz.
- Hum, está bem. Mas volta daqui a um bocado porque eu não aguento este jogo muito tempo. - piscou-me o olho em sinal de cumplicidade.
Gosto mesmo da Joana. Ela é tão simples e sem problemas. Para ela é tudo sem complicações. Ás vezes gostava de ser como ela e ver a vida de cor-de-rosa claro, mas nem sempre é possivel. Eu e ela somos muito diferentes, mas secalhar é mesmo por isso que nos damos tão bem. Saio do bar e vou para um banco. Tiro o caderno e o estojo e começo a resolver os exercícios. Passado nem 3 minutos, chega-me o Francisco e pede se se pode sentar.
- Estas-te a passar? Claro que te podes sentar. - sorri-lhe.
Ele sentou-se.
- Eiiii, tpcs de matemática? Não os fizeste?
- Não - estava concentrada no exercício e aquele gajo não me deixava acabar.
- Não me apetecia muito estar ali, eles só fazem perguntas estupidas.
- Ya, por isso é que bazei. Não curto muito esses jogos. Quer dizer, gostar até gosto, mas com a turma toda.. Bem.
- Até gosto da nossa turma. Apesar dos defeitos de cada um, quando querem conseguem ser porreiros.
- Muito raramente. - mando a frase para o ar e rio-me sozinha. - Empresta-me a calculadora, porque não trouxe a minha.
O Francisco abre a mochila e tira a máquina. Quando tira a máquina, cai uma folha de papel branca. Apanho-a antes dele e abro-a. É um desenho. É uma bailarina a dançar. Estava tão lindo. Estava a lápis e dava-lhe um toque de serenidade.
- Fogo Francisco, está bué lindo! - Juro que estava. Estava simples e ao mesmo tempo complexo. Aquilo não era só uma simples bailarina, queria dizer qualquer coisa para ele.. Só que não lhe perguntei, porque há coisa que simplesmente devmos guardar só para nós.
- Obrigada, fiz ontem á noite. Não tinha sono e olha, deu-me para isso. - Olha fixamente o desenho e ri-se.
- Mas a sério, está mesmo giro. Tens bué geito para isto.
- Tenho mais, só que nunca os mostrei a ninguem. Só a minha mãe.
- Por acaso, gostava de os ver.. Se quizeres podes-me trazer. Gostava de saber desenhar, mas sou uma zero nessa matéria.
- Qualquer dia ensino-te. - diz o Francisco a olhar para mim.
O Francisco é o tipo de rapaz, em que sabemos que podemos confiar. É simples, calado, envergonhado e vê-se logo no primeiro momento que falamos com ele que nunca tem segundas intenções. É simpático para todos e tem uns olhos azuis tão lindos. Assim grandes. Aptece-me mergulhar para dentro deles. É engraçado.
- Quero ver isso, quero. Opá, ajuda-me nisto. Quanto é que isto dá?
- Tens de subtrair o 5 pelo 7 e depois multiplicar por 2 porque é ida e volta.
- Ah, está bem. Sou naba a matemática.
- Claro, pelo o que tu dizes és nada a muita coisa. Desenho, matemática.. Achas-te boa em alguma coisa? - o Francisco abre as mãos e faz um gesto esquisito que não percebo muito bem.
- Opá, sou boa a falar.
Continuamos a falar por um bom bocado e parece que passa a correr. Falamos das bandas de música que ele gosta, da sua cor preferida, do que é que ele faz quando chega a casa.. Tambem me falou do pai que morreu quando ele tinha 2 anos. Diz que não se lembra muito dele, mas que gostava de o ter conheçido. Nunca sei o que dizer nestas alturas, porque não há muita coisa que se possa dizer. Aceno com a cabeça a maior parte das vezes. Toca para o intrevalo e a turma toda sai do bar. Vêm em direcção a nós:
- Estiveram aqui? - pergunta a Carlota.
- Sim. - respondo a cortar a conversa. A carlota é esquisita, umas vezes parece uma fixe outras parece uma atrasada que só quer arranjar chatices. Uns foram-se embora, outros para os campos. Outros para as suas voltas habituais nos intrevalos. Fiquei eu, a Joana, o Francisco, a Mariana e a Ana. O Francisco permaneceu ao meu lado, calado... Pouco falava, só mesmo quando lhe perguntavam alguma coisa. O Intrevalo passou rápido. Depois de tocar elas levantaram-se e eu arrumei os cadernos e o estojo na pasta.
- Não contes aquilo do meu pai a ninguem - disse-me o Francisco.
Claro que não, Francisco.
- Nem dos desenhos.
- Está bem, fica descansado. Também a quem é que eu haveria de contar?
- Não sei.. Mas nao gosto nada que as pessoas saibam da minha vida.
- Eu compreendo-te, porque sou igual. Quanto mais afastadas, melhor.
- Mais ou menos isso.
Fomos andando para a sala e tivemos matemática. O dia foi passado nas calmas, um típico dia de aulas de Inverno. Quanto tocou para a saída a Joana vem ter comigo e diz que não vai a pé. Tem de ir a casa de uns amigos dos pais e que se me pudesse dava boleia mas nao ficava nada em caminho e já estava atrasada.
- Não há problema. Eu acho que também perciso de passar por casa da Ana para ir buscar uns resumos.
A verdade é que não tinha, mas não queria que a Joana se sentisse mal, porque eu sabia que ela se ía sentir se não me pudesse dar boleia. Fui ao cacifo e tiro o blusão e a mochila de educação física. Desco as escadas e já está pouca gente na escola. Não percebo porque sairam todos tão á pressa. Saio do portão e sinto uma mão atrás de mim.
- Percisas de companhia? - é o Francisco. Não vou dizer que não por duas razões: a primeira é que não queria ir sozinha para casa e a segunda é que ele até era uma boa companhia.
- Anda daí.
Começamos a falar da última aula que foi uma seca e que a matéria parecia chinês ou alemão, ou qualquer coisa parecida. Parece sempre a primeira vez que falo com ele. Mostra-se sempre tão acessível e parece querer saber tudo, mesmo que tenha repetido 1000 vezes.
- Então e tu? Estou sempre a falar e tu não me contas nada sobre ti. - disse isto e chutou uma pedra do caminho.
- Não há nada para contar. Sou normal.
- Claro que há. Por exemplo, como é que são os teus Natais? - ri-se da pergunta.
- Com a familia toda. É tudo uma baralhação. Jantamos, cantamos e esperamos pelo Pai Natal! - faço um sorriso estúpido e ele ri-se.
- Já sabes o que vais pedir?
- Um relógio, este já está todo lixado. - mosto-lhe o pulso com o meu relógio de bonecos. A barcelete roida, o visor riscado. É um bom relógio.
- Não está assim tanto! És tão exagerada Francisca.
- Fogo, não sou. Está todo lixado, para mim está.
- Não estimas as coisas como eu, se não saberias o que era estar estragado.
Calei-me. Dava para ver que o Francisco não tinha muitas possiblidades, por isso calei-me.
- Podes falar. Eu não levo a mal. Não escolhemos como vivemos. - faz um sorriso triste e distante.
- Bem, tu moras por estes sítios? - decido cortar a conversa para não ficar um ambiente pesado.
- Não.
Fitei-o e arregalei os olhos.
- Então porque é que vieste comigo?
- Achei que precisavas de companhia.
A verdade é que estava a gostar da tarde. Ele é uma pessoa fácil de falar e tem sempre assunto. Continuamos a falar da minha família, do meus pratos preferidos. Contei-lhe que nunca tive assim uma melhor amiga. A Joana era minha amiga, mas nunca fomos as melhores. Nunca fizemos tudo juntas, nem dormimos em casa uma da outra.. Essas coisas típicas das melhores amigas. Eramos grandes amigas.Chegámos perto da minha casa.
- Bem, é aqui. Obrigada pela companhia Xiquinho. Não te esqueças de me trazer os desenhos, amanha.- dou-lhe um toque no ombro.
- Está bem Francisca.
Ele despede-se de mim com um beijo na bochecha muito suave. Quase nem senti. Mas soube bem. Abro a porta e entro dentro de casa. Faço os tpc's, vejo televisão, tomo banho e janto. Leio um bocado antes de ir dormir. Antes de adormeçer penso na Joana, na turma, e no Francisco. O que é que ele estaria a fazer áquela hora?A minha mãe abre a persiana.
- Levanta-te, já são horas.
Odeio falar de manhã, é uma coisa que me irrita. Fico uns 10 minutos e engonhar, levanto-me e preparo-me. Saio de casa e mando mensagem á joana para descer. Já faço esta rotina desde o 5º ano e nunca me canso. Lá vem a Joana com a sua pasta preta, muito na moda, por acaso. Estava bonita , com umas calças justas e uma camisola de manga comprida que lhe ficava mesmo bem. Tenho de confessar que em certas vzes, tinha inveja dela. Ela era bonita, inteligente, amigável e sociável, mas acima de tudo tinha um á vontade incrivel. Eu não. Não gostava de falar com a maioria dos rapazes, porque naquela idade andam sempre com as hormonas aos saltos.
Vamos para a escola e as aulas até se passam rápidas. O Francisco passou comigo o intrevalo grande.
- Então, os desenhos? - pergunto-lhe eu, logo de manhã.
- Eu mostro-te á tarde.
- Acho bem.
Quando toca para sair a Joana vem ao pé de mim:
- Vamos?
- Pois, se não te importas hoje vou sozinha. Tenho primeiro de ir tratar de umas coisas.
- Que coisas?
Que cusca que ela é, fogo.
- Tenho de ir a casa da Ana, porque ontem não fui.
- Hum, está bem. Isso sooa-me a falso, mas vou fingir que acredito. - acena fortemente a cabeça.
Saio da escola e fico á espera do Francisco. Não podia perder a oportunidade de ele me mostrar os desenhos.
Passado uns 5 minutos ele vem.
- Fogo, estava a ver que não aparecias.
- Exagerada. Só demorei 5 minutos, tive de ir ao cacifo.
- Como queiras. - respondo secamente.
- Bem, vou-te mostrar os desenhos, mas nao pode ser aqui.
- Han? Então vamos onde?
- Já vês.
Odeio charadas. Odeio, odeio odeio. Não gosto nada deste tipo de suspanse. Andamos 10 minutos. Ele é que fala, porque não me apetecia falar muito. Chegamos a um jardim. Recordo-me vagamente disto, costumo ve-lo, mas nunca estive aqui.
Sentamo-nos na relva e ele abre a mochila. Tira um bloco A4 e abre-o. Vai virando a folha. Os desenhos são todos a lápis de carvão, os traços grossos e enormes. Há abstractos, retratos de paisagens e de pessoas. Mas o que há mais são paisagens a amanhecer. Estão bonitos e de repente transmitem-me calma, como se estivesse a dormir.
- Então? - pergunta ele a olhar para mim, com olhar de cachorrinho.
- Estão tão bonitos Francisco. A sério, aconteça o que aconteçer, nunca desistas de desenhar. Quase que me arrepio.
- Que exagerada!
- Fogo, para de me chamar isso. Estou a dizer-te a verdade. São lindos lindos lindos! - digo eu a olhar para o bloco.
O Francisco tira da mochila uma máquina fotográfica.
- Eu gosto de desenhar fotografias que tirei.
De repende sem eu contar tira-me uma foto. Nesse instante uma rajada de vento percorre o meu corpo e sorrio. Os meus caracóis enrolam-se todos á volta da cara. O Francisco pousa a máquina e afasta-me os caracóis. As mãos dele são tão leves e macias. Como se tivessemos todo o tempo do mundo, agarra no meu queixo e inclina-se. Os lábios deles tocam nos meus, tão suavemente e delicadamente... Afasta-se como que a ver a minha reacção e eu faço um sorriso envergonhado. Então ele sente que pode avançar e beija-me. Uma e outra vez, como se não houvesse fim. Como nas paisagens que ele pinta, o dia está a amanhecer de uma maneira leve e calma. Não há pressa.